Quais as melhores alternativas, ou as mais adequadas, para as empresas de veículos pesados atenderem as questões de descarbonização no Brasil?

Este foi um dos objetivos do estudo O caminho da descarbonização do setor automotivo no Brasil, realizado pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). O levantamento considerou as peculiaridades do país tais como a economia, a presença do biocombustível e a tecnologia.  Neste aspecto, em especial, teve a preocupação de avaliar a capacidade do mercado nacional em suprir demandas de produção, necessidade de importar e até mesmo perspectiva de exportar inovação.

O estudo é resultado de um trabalho iniciado pela Anfavea em 2020, que envolveu ações internas com associados, workshops e uma ampla estratégia de aproximação com a Petrobras, uma empresa de pesquisa energética ligada ao Ministério de Minas e Energia, produtores de álcool e gás e empresas do setor que atuam no agro. “Com bastante informação, contratamos a consultoria Boston Consulting Group (BTG), que já tinha feito trabalhos nesse sentido na Europa, EUA, China e Índia, para elaborar a pesquisa. A nossa preocupação não foi de apontar o que as empresas devem fazer, mas quais as consequências dos caminhos que podem ser adotados no Brasil”, explica o diretor técnico da Anfavea, Henry Joseph Junior.

Três cenários básicos serviram como norte para o estudo, tendo como perspectivas os anos de 2030 e 2035: inercial, convergência global e protagonismo de biocombustíveis.

Cenário Inercial 

Este cenário teve como premissas a manutenção das políticas econômicas atuais e a continuidade do processo de regulamentação da poluição que está em andamento. De acordo com o estudo, com essas perspectivas, as novas tecnologias de motorização (NEVs) ficam voltadas para aplicações específicas e para atender demandas de grandes clientes. O motor a diesel permanece dominante.

Cenário convergência global 

Neste cenário, o estudo leva em consideração perspectivas de que o Brasil venha a adotar políticas públicas e tributárias que facilitem a entrada de novas tecnologias no mercado nacional de forma mais intensa do que aquela que ocorre em uma perspectiva inercial”, destaca Henry Joseph Junior. Neste ambiente, o estudo aponta que a evolução tecnológica permitiria que novas tecnologias ganhassem escala no Brasil, atingindo, em 2035, níveis de penetração similares aos que  a Europa terá em 2030. O Brasil se aproximaria, com isso, de níveis de novas motorizações de mercados mais avançados e as montadoras seguiriam estratégias globais para NEVs.

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Cenário protagonismo de biocombustíveis

O terceiro cenário trabalha com um ambiente em que, ao contrário do país implantar políticas públicas de incentivo às novas tecnologias e eletrificação, o uso dos biocombustíveis prevaleça, inviabilizando a convergência global. “Sabemos que seria difícil para o Brasil oferecer incentivos como os que ocorrem na Europa, que dá até seis mil euros para quem quer comprar um veículo elétrico”, salienta o diretor técnico da Anfavea. Neste cenário, portanto, o Biodiesel/HVO e outros biocombustíveis ganham protagonismo como caminho para descarbonização, viabilizados por regulação favorável e investimentos. Além disso, neste ambiente haveria o aumento de 15% da participação de HVO, índice que seria de 3% em um cenário inercial.

Na realidade brasileira, biocombustível ainda permanecerá com a melhor alternativa

Henry Joseph Junior avalia que o estudo mostra uma perspectiva complexa para a eletrificação de veículos pesados. “É mais complicada do que em veículos leves, pois, para aqueles que vão principalmente fazer transporte interurbano, pro interior, de longa distância, seria necessário possuir uma carga de bateria muito grande. Bateria é peso, e peso, em caminhão, rouba a capacidade de carga. Então, para aumentar a autonomia de um caminhão elétrico, teria que diminuir a capacidade de carga, o que exigiria mais caminhões para atender a mesma carga que se transporta hoje”, explica.

Com base nos resultados da pesquisa, o diretor técnico da Anfavea, projeta que a eletrificação de veículos pesados deva ocorrer mais para aqueles que circulam em trânsito urbano do que para os que atuam em longas distâncias. “Esse estudo mostrou exatamente isso. Vamos precisar ter essa maior penetração da tecnologia, mesmo no cenário de convergência global, com incentivos em programas do governo, programas tributários, políticas públicas, ou mesmo até, como outros países fazem, com incentivos em permitir um pedágio mais barato para veículos elétricos,  ou definir que em determinadas regiões somente veículos elétricos ou eletrificados possam rodar”, aponta.

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Ele afirma, portanto, que, analisando os três cenários, o investimento em biocombustível é que promoverá maiores resultados de descarbonização: “O Brasil tem um baixo índice de retomada de frota, portanto a influência das novas tecnologias seria lenta e pequena no âmbito geral. O biocombustível tem a vantagem de poder ser usado tanto por veículos novos como por mais antigos. Desse modo, o impacto ambiental de redução de gases do efeito estufa é muito melhor com o cenário de biocombustíveis, que com o cenário de convergência global”.

Falta de políticas públicas gera incertezas para o futuro

Henry Joseph Junior ressalta que unir os cenários de convergência global e biocombustíveis seria o caminho ideal, mas a falta de políticas públicas definidas é o grande obstáculo para perspectivas mais positivas. Não há uma definição se o caminho será o da eletrificação ou o dos biocombustíveis. “Apesar do governo brasileiro se manifestar em fóruns internacionais, assumindo compromissos de que vai descarbonizar, não há nenhuma iniciativa que demonstre como isso irá acontecer. Não temos, portanto, uma política clara, que revele qual é o objetivo do Brasil, quais são as tecnologias que o país gostaria de adotar”, frisa. 

Descarbonização não é assunto de um setor só, reforça o diretor técnico da Anfavea. “O tema passa por todos os setores da sociedade. Eu entendo, é isso ficou claro em nosso estudo, de que não existe no Brasil uma visão mais ampla de como atacar o problema por meio de políticas que levem a esses caminhos, ou definam melhor quais os que sejam de maior interesse para o país. Estou falando de maior interesse do ponto de vista de investimentos, de criação de empregos, de desenvolvimento local e tecnologia, investimentos em pesquisa e desenvolvimento e em infraestrutura”, destaca.

E, por fim, Henry desabafa: “Precisamos ter um norte, uma discussão pública. Com certeza teríamos oportunidades de investimento muito grandes para o Brasil, tanto para a eletrificação como para os biocombustíveis. Quando falamos isso, pensam que falamos de incentivos  tributários. Não é nada disso. O que está faltando é definir políticas que demonstrem quais os caminhos que o país deve adotar e tomar.

Acesse aqui o estudo na íntegra.

*Conteúdo criado com exclusividade para o blog ROTA DIGITAL NEWS da FENATRAN, por Valéria Bursztein.

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